domingo, 20 de julho de 2008

O início é o fim

Trecho do conto Estória do ladrão e do papagaio retirado de Luuanda - José Luandino Vieira

Pode mesmo a gente saber, com a certeza, como é um caso começou, porquê, pra quê, quem? Saber mesmo o que estava se passar no coração da pessoa que faz, que procura, desfaz ou estraga as conversas, as macas? Ou tudo que passa na vida não pode-se-lhe agarrar no princípio, quando chega nesse princípio vê afinal esse mesmo princípio era também o fim doutro princípio e então, se agente segue assim, para trás ou para a frente, vê que não pode se partir o fio da vida, mesmo que está podre nalgum lado, ele sempre se emenda noutro sítio, cresce, desvia, foge, avança, curva, aparece... E digo isto, tenho minha razão. As pessoas falam, as gentes que estão nas conversas, que sofrem os casos e as macas contam, e logo ali, ali mesmo, nessa hora em que passa qualquer confusão, cada qual fala a sua verdade e se continuam falar e discutir, a verdade começa a dar fruta, no fim é mesmo uma quinda de verdades e uma quinda de mentiras, que a mentira é já uma hora da verdade ou o contrário mesmo.

Garrido Kam’tuta veio na esquadra porque roubou um papagaio. É verdade mesmo. Mas saber ainda o princípio, o meio, o fim dessa verdade, como é então? Num papagaio nada que se come; um papagaio fala um dono, não pode se vender; um papagaio come muita jinguba e muito milho, um pobre coitado capianguista não gasta o dinheiro que arranja com um bicho assim, não dá lucro. Porquê então roubar ainda um pássaro desses?

O fio da vida mostra o quê, o como das conversas, mesmo que está podre não parte. Puxando-lhe, emendando-lhe, sempre a gente encontra um princípio num sítio qualquer, mesmo que esse princípio é o fim doutro princípio. Os pensamentos, na cabeça das pessoas, têm ainda de começar em qualquer parte, qualquer dia, qualquer caso. Só o que precisa é procurar saber.

*

Quero falar do amor, mas não sei quando principiou. Em março? (talvez perto da páscoa: ah... renasci! ou talvez do outono: ah... morri.)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Tão bonito.

Chover (ou Invocação para um dia Líquido) - Cordel do Fogo Encantado, composição: Lirinha e Clayton Barros.
"O sabiá no sertão
Quando canta me comove
Passa três meses cantando
E sem cantar passa nove
Porque tem a obrigação
De só cantar quando chove"

quinta-feira, 10 de julho de 2008

É

Poeminha do Contra - Mário Quintana
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Mais passarinhos

Toada do Amor - Carlos Drummond de Andrade
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E o amor sempre nessa toada!
briga perdoa perdoa briga.
Não se deve xingar a vida,
a gente vive, depois esquece.
Só o amor volta para brigar,
para perdoar,
amor cachorro bandido trem.
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Mas, se não fosse ele, também
que graça que a vida tinha?
.
Mariquita, dá cá o pito,
no teu pito está o infinito.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O mês é dos passarinhos

PASSAREDO - Chico Buarque e Francis Hime
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Ei, pintassilgo
Oi, pintaroxo
Melro, uirapuru
Ai, chega-e-vira
Engole-vento
Saíra, inhambu
Foge asa-branca
Vai, patativa
Tordo, tuju, tuim
Xô, tié-sangue
Xô, tié-fogo
Xô, rouxinol sem fim
Some, coleiro
Anda, trigueiro
Te esconde colibri
Voa, macuco
Voa, viúva
Utiariti
Bico calado
Toma cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí
.
Ei, quero-quero
Oi, tico-tico
Anum, pardal, chapim
Xô, cotovia
Xô, ave-fria
Xô, pescador-martim
Some, rolinha
Anda, andorinha
Te esconde, bem-te-vi
Voa, bicudo
Voa, sanhaço
Vai, juriti
Bico calado
Muito cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O limite maior é doce - e/ou - Porque não era livre

PARDALZINHO - Manuel Bandeira (1943)
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O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!
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quinta-feira, 3 de julho de 2008

A andorinha?

Certa vez um milho dentro de uma embalagem de pipoca se metamorfoseou berrando: piPOCa. O grito foi tão alto que explodiu o microondas.